Uma força me puxa tão forte, que é possível ver as marcas em meu corpo. Surge o desespero e o impulso de correr, apenas correr para longe, até o fim daquela estrada de terra marrom avermelhada cercada por arbustos e árvores mortas.

O fôlego acaba, olho para meus pés descalços e sujos e percebo que estou à beira do abismo. Um abismo chamado Insanidade.

Um abismo escuro, solitário e perigoso. Um lugar onde todos meus demônios internos estão à solta, ao meu redor, lá eles realmente existem.

O pulo não é consciente, quando percebo estou em queda livre, me perdendo na escuridão.

Não existem escadas para subir, apenas tijolos a serem escalados, um a um.
Só existem duas saídas, a morte que é rápida, até mesmo indolor e tão tentadora, pois acaba com a dor e o medo em minutos.
E existe a luz, onde mesmo em meio a tanto turbulência ainda existe um resquício de vida dentro desse corpo bolorento.

Escolho os tijolos, quase sem fôlego, sem vida, sem nada, chego ao topo. No corpo,  escoriações causadas pelos tijolos, no coração medo, na cabeça dúvidas e a alma vazia. Meu Eu ficou para trás, nada sobrou.

Olho novamente para aquela estrada e me dou conta de quão longa ela é, me ajoelho e choro, mas não há lágrimas, até isso me foi roubado.

Estou nua, não de vestimenta, mas de vida, os anos se passaram, as pessoas se foram, as flores morreram…

O dia está frio, mas o Sol está quente, ouço pássaros e sinto um pouco de esperança, esperança para Recomeçar, Reconstruir.

No meu corpo as cicatrizes sumiram, o tempo apagou. E num piscar de olhos estou novamente na estrada, mas agora as árvores estão vivas, estou calçada, meus pés não estão mais sujos, há um frescor no ar e lá estou eu à beira daquele mesmo abismo. Sinto uma pontada no peito e percebo que as cicatrizes que se apagaram de meu corpo, hoje estão em minha alma, posso senti-lo sangrar e o sangue escorrer em minha face no lugar das lágrimas.

O medo de voltar para lá toma conta, mas agora tenho algo dentro de mim além das cicatrizes. Tenho força.

A força que me dá o poder de dessa vez escolher: “Pular ou não pular, morrer na insanidade ou viver lutando pela sanidade que por algum motivo me foi roubada?”

Sou forte, mas será que sou forte o bastante?
Pula ou ficar? Render-se ou lutar? Morrer ou viver?

fenix-f